12/03/2026
Por Clarice Sfair
Foto capa: Divulgação "Esquadrão da Moda"
Frequentemente, quando as pessoas perguntam sobre meu trabalho como Consultora de Estilo, ouço referências sobre os “programas de transformações” que são vinculadas na TV aberta e fechada. Um dos que sempre surge nas conversas é o programa estadunidense “What Not to Wear” - que no Brasil recebeu o nome “Esquadrão da Moda” - apresentado por Stacy London e Clinton Kelly (guardem esses nomes), que durou de 2003 a 2013.
Esse programa é uma versão do show de tv britânico “What Not to Wear” apresentado por Susannah Constantine e Trinny Woodall entre 2001 e 2007. O sucesso do programa fez com que vários países criassem sua própria versão. O Brasil teve a sua versão com o programa também chamado “Esquadrão da Moda”, criado pelo SBT.
Em todos esses programas, existem dois momentos muito temidos. O primeiro é o espelho de 360 graus, no qual a silhueta é analisada de todos os ângulos. Até aí tudo bem, é benéfico saber como sua roupa está nas costas. O problema está na reação dos apresentadores (principalmente nas versões britânica e estadunidense), que tecem comentários maldosos (para dizer o mínimo) sobre o corpo da participante e suas roupas.
O segundo momento mais temido é a análise do guarda-roupa da participante, já que, na maioria das vezes, as roupas são jogadas literalmente no lixo.
O “novo estilo” da participante era montado com base em regras (que gosto de chamar de caixinhas), por exemplo: se a participante tem seios grandes, tem que usar decote x; se a participante tem quadril largo, tem que esconder usando a saia y. Invariavelmente, toda participante era obrigada a comprar um salto alto, mesmo que não usasse saltos ou esse tipo de calçado não encaixasse na sua rotina. Em nenhum momento era perguntado como a participante via seu corpo, quais suas necessidades, como sua rotina impacta na escolha de roupas e tantas outras coisas.
E assim se formou o senso comum de que a Consultora de Estilo é como uma mágica, que simplesmente analisa seu corpo (se é triângulo invertido, pera, maçã), um pouco da sua rotina, seu trabalho e decide qual seu estilo e o que você deve usar.
Não vou mentir, por muito tempo a Consultoria de Estilo funcionou assim mesmo. O que seria indicado para você dependia do formato do seu corpo (escrevi mais sobre isso aqui) e seu estilo seria enquadrado numa regrinha lá dos anos 80 criada por Alyce Parsons, chamada “7 Estilos Universais”.
Mas hoje as coisas mudaram: eu não trabalho seguindo nenhuma dessas regras, o estilo da cliente e as peças que ela vai usar dependem das necessidades DELA, de como ELA vê seu corpo, como é o SEU dia-a-dia, como ELA quer se sentir, qual mensagem ELA quer transmitir. Eu ajudo a traduzir tudo isso em roupa. É um trabalho que envolve muito a escuta da cliente.
Em nenhuma hipótese todas as roupas das clientes serão condenadas. Na fase que chamo de “Edição de Guarda-roupa”, a cliente dá a última palavra sobre o que fica e o que sai. Meu papel é dar argumentos técnicos, por exemplo: para uma cliente calorenta, as roupas de poliéster não são adequadas nos dias quentes, mas o poliéster pode ser um aliado no clima frio. Com base nessa informação é a cliente quem decide se quer manter ou não a regatinha de poliéster.
As pesquisas de mercado mostram que as pessoas não querem seguir modelos pré-estabelecidos e, muito alinhados com isso, os mesmos apresentadores do “Esquadrão da Moda” norte americano, Stacy London e Clinton Kelly lançaram, em 2025, o programa “Wear the f* you want”, que traduzido seria algo como “Vista qualquer coisa que você quiser” (disponível no Prime). No programa, o estilo dos participantes e as roupas que vão usar partem deles mesmos e não de uma fonte externa. Os apresentadores estão ali para ajudá-los nessa jornada, não para enquadrá-los numa caixinha.
Gostaria muito que esse programa tivesse mais temporadas e fosse exibido em TV aberta. Me ajudaria muito a desfazer os mitos criados por programas de transformação antigos.